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MOOCA: Ex-alunos se mobilizam para restaurar escola pública na Mooca, em SP

Uma década após um desvio de verba, o estabelecimento ainda sofre as consequências das limitações para investir em infraestrutura.

Os muros da escola inspiravam lembranças. Na manhã de sábado, no dia 4 de março, ao voltar à Escola Estadual Martins, Miragaia, Drausio e Camargo (M.M.D.C.) para participar de um mutirão de reparos no bairro do Alto da Mooca, em São Paulo, era como se os ex-alunos ainda fossem donos de um pedacinho daquele universo. A nostalgia inspirava vozes que, no passado, ecoaram nos corredores repletos de alunos, junto ao arrastar de cadeiras e materiais escolares. Agora, munidos de vassouras, rolos de tinta e materiais para doação, os antigos alunos davam início ao batente.

Os muros da escola inspiravam lembranças. Na manhã de sábado, no dia 4 de março, ao voltar à Escola Estadual Martins, Miragaia, Drausio e Camargo (M.M.D.C.) para participar de um mutirão de reparos no bairro do Alto da Mooca, em São Paulo, era como se os ex-alunos ainda fossem donos de um pedacinho daquele universo. A nostalgia inspirava vozes que, no passado, ecoaram nos corredores repletos de alunos, junto ao arrastar de cadeiras e materiais escolares. Agora, munidos de vassouras, rolos de tinta e materiais para doação, os antigos alunos davam início ao batente.

A escola não estava abandonada: muito pelo contrário. A diretora Ariane de Lucca Bonansea, de 50 anos, assumiu a posição há quatro anos – mas passou metade de sua vida como professora de ciências na M.M.D.C. Todos os sábados, religiosamente, ela abre os portões de ferro ao lado de Anderson dos Santos, de 42 anos, que tem três filhos na escola e se prontificou a ajudar nos problemas de infraestrutura desde janeiro deste ano. “A ideia é pintar toda a escola, arrumar a fiação elétrica e fazer manutenção”, diz Anderson. A tinta, utilizada em dezenas de salas de aula no mutirão, veio do bolso da professora.

As dificuldades financeiras surgiram quando, há cerca de dez anos, houve um desvio de verbas dentro da escola. Até então, a escola contava com duas fontes de verba: o repasse da Secretaria de Educação, que dá conta dos grandes custos da instituição, e a verba da Associação de Pais e Mestres (APM) – em convênio com a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE) –, usada para reparos e emergências do dia a dia. O desvio de verba descoberto em 2007 foi estimado, naquela ocasião, em R$ 300 mil. A fraude fez com que a escola ficasse sem dinheiro para pagar obrigações trabalhistas e levou à extinção da APM na escola. O escândalo levou também à exoneração da ex-diretora, ao fechamento da cantina e até à suspensão de passeios na escola. “Não podia mais circular dinheiro lá dentro, ter cantina [atualmente, só a merenda pode funcionar dentro do estabelecimento] ou passeios”, diz a ex-aluna Kamilla. Até hoje, ações trabalhistas estão em curso, além da ação da FDE contra a APM da M.M.D.C.

Desde 2008, a Diretoria de Ensino tem atendido a pedidos mais urgentes, como manutenção predial, recarga de extintores, desinsetização e limpeza na caixa d’água. Mas essa ajuda não é suficiente para a manutenção cotidiana da escola. “Todas as verbas do estado chegam via APM. Como não temos uma associação constituída, a gente não recebe. Contamos com o apoio da Diretoria de Ensino Centro Sul”, afirma Ariane. A diretora acaba acionando a Diretoria em casos mais urgentes, como o estouro de um encanamento.

Apesar das dificuldades financeiras, Ariane afirma que o trabalho pedagógico da escola continua fortalecido. Edite Leite da Silva, de 51 anos, mãe de Kamilla e Pedro, concorda: “Eles [os fucionários] fazem milagre, não deixam faltar nada. Quando ainda não era mãe, Edite chegou a acampar por uma noite na frente da escola para que uma amiga conseguisse a vaga para o filho. Mais tarde, não teve dúvidas ao inscrever Kamilla para estudar na M.M.D.C e chegou a contribuir com a APM quando a filha estava no ensino fundamental. “Quando o roubo ocorreu, parei de contribuir. Voltei a ter contato com a escola na matrícula do Pedro. Até me assustei, porque a aparência era outra.” Ainda que estivesse com aspecto deteriorado, o que motivou Edite a insistir na vaga do filho foi o método da escola – que oferece ensino integral – e a atenção de Ariane, que chegou a interromper uma reunião para recebê-la. “Isso me passa uma segurança. O importante é que os alunos estão tendo o conteúdo de que precisam”, diz.

A Diretoria Regional de Ensino Centro Sul, por meio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, afirma que o processo administrativo ainda está em andamento e “não há como a Secretaria definir um possível ‘perdão de dívidas’, uma vez que há processos trabalhistas em andamento na Justiça contra a APM da escola e não cabe à Educação encerrar esses processos”.

Por sorte, a falta de recursos no cotidiano, que levou à deterioração na infraestrutura da escola, não acabou com o sentimento colaborativo da comunidade.

Revista Época / GABRIELA VARELLA / 03/04/2017